O Orfismo de Fernando Pessoa
- Alexandre Paiva
- 22 de abr. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de mai. de 2018
Por Zacharias Alvim
Como se viu, o Saudosismo de Teixeira de Pascoaes e A Águia atraíram alguns jovens, dentre os quais Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Mário Beirão, Afonso Duarte, Raul Leal entre outros. Em pouco tempo, todavia, eles alcançam superar a iniciação saudosista, e à luz das modernas correntes europeias no terreno estético e no filosófico (Picasso, o Cubismo, o Futurismo, Max Jacob, Apollinaire, Max Nordal etc.) evoluem francamente para o Modernismo, por momentos confundidos com o Futurismo.
Em 1915, alguns deles, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Raul Leal, mais Augusto de Santa-Rita Pintor, Luís de Montalvor, Almeida Negreiros, Raul Coelho, Tomás de Almeida, Alfredo Guisado, Armando Cortes-Rodrigues e, de passagem, o brasileiro Ronald de Carvalho, resolvem fundar uma revista que sirva de porta-voz e concretização de seus ideais estéticos, em consonância com o que vai no resto da Europa. Nasce o Orpheu, cujo primeiro número, corresponde a janeiro-fevereiro-março, aparece em 1915, sob a direção de Luís de Montalvor, para Portugal, e de Ronald de Carvalho, para o Brasil (na verdade, a ideia surgira numa conversa entre os dois travada no Rio de Janeiro, quando o primeiro era funcionário da Embaixada de seu País).
De acordo com essas ideias estetizantes e confessadamente esotéricas, põem-se a criar uma poesia alucinada, chocante, irritante, irreverente, com o fito de provocar o burguês, símbolo acabado da estagnação em que se encontra a cultura portuguesa. A poesia, elevada ao mais alto grau, entroniza-se como a forma ideal de expressar o espanto de existir, e sintetiza toda uma filosofia de vida estética, sem compromisso com qualquer ideologia de caráter histórico, político, científico ou equivalente. A aderência ao modernismo significa, pois, o rompimento com o passado, inclusive em sua feição simbolista.
Por outros termos, corresponde a um momento em que as consciências se elevam para planos de universal indagação, para a verificação de uma angústia geral, fruto da crise que engolfava a Europa e o mundo. A guerra de 1914 é manifestação nítida dessa crise, provocada pela necessidade de abandonar as velhas e tradicionais formas de civilização e cultura (de tipo burguês) e de buscar novas fórmulas substitutivas. O homem posta-se à frente do espelho, sozinho perante a própria imagem, e angustia-se porque vive uma quadra de desdeificação do mundo, de ausência de Deus ou qualquer verdade absoluta capaz de explicar-lhe a incoerência visceral e sem-razão do existir. O reino da anarquia instala-se como fruto do relativismo, nascido com a grande viragem histórica representada pela cultura romântica, de que o Modernismo é legítimo caudatário. Estava-se no ápice do processo, ou no início dum estágio mais avançado, como os anos posteriores vieram a mostrar. Nasce o desespero, a instabilidade total, porquanto os padrões estão em mudança ou devem ser mudados. Nessa atmosfera, a poesia substitui os mitos, transformando-se, ela própria, num mito.
Um segundo número do Orpheué publicado, em 1915, sob a direção de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, confirmando o alcance da nova revista e provocando escândalo suficiente para determinar a reviravolta cultural preconizada pelos moços. Um terceiro número, embora no prelo, não chega a sair: Mário de Sá-Carneiro, que vem sustentando financeiramente o periódico, suicida-se. Pesar da efêmera duração, o órgão havia alcançado seu objetivo, ao mesmo tempo que introduzia o Modernismo em Portugal.
Dos participantes no Orpheu, merecem destaque Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almeida-Negreiros. Vamos falar especialmente de Fernando Pessoa no próximo post.
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