top of page

Literatura 18 

O Guardador de Rebanhos – Por Esther Constantino

  • Foto do escritor: Alexandre Paiva
    Alexandre Paiva
  • 22 de abr. de 2018
  • 13 min de leitura

Atualizado: 20 de mai. de 2018


Acervo Google Image Search "Fernando Pessoa"

O Guardador de Rebanhos é uma obra composta por 49 poemas, que marca o surgimento do heterônimo Alberto Caeiro. A obra defende a ideia de sentir-se superior ao pensar. É impregnado com a ideia de que a divindade não está em um Deus, mas na natureza, sempre citada. Nesse texto vamos analisar em particular, os poemas V e VIII desta obra que questiona o sentido da vida e do mundo.


Alberto Caeiro funda o paganismo superior na obra de Fernando Pessoa. Esse procedimento evidencia-se no livro O guardador de rebanhos, em particular, no canto VIII. Ele apresenta a humanização de Jesus Cristo, que retorna como menino.

Na parte V, encontra-se o sentido íntimo de todo o livro, existe um paradoxo, Caeiro recusa o pensamento, mas usa o pensamento, analisa sua própria forma de pensar, construindo a “antimetafísica”.


Entre dezenas de heterônimos que Fernando Pessoa “descobriu”, Alberto Caeiro é considerado o mestre dos demais, e o próprio ortônimo de Fernando Pessoa. Calmo, é o poeta que foge para o campo, pois, sendo poeta e nada mais, deve procurar viver simplesmente como a natureza, que é feliz apenas porque, faltando à capacidade de pensar, não sabe o que é. Para Caeiro o importante é ver e ouvir: “A sensação é tudo (...) e o pensamento é uma doença”.


Poema V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.


O que penso eu do Mundo?

Sei lá o que penso do Mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.


Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).


O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o Sol

E a pensar muitas coisas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o Sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do Sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.


Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?


«Constituição íntima das coisas»...

«Sentido íntimo do Universo»...

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em coisas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.


Pensar no sentido íntimo das coisas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.


O único sentido íntimo das coisas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.


Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!


(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.


Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.


E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.


Análise

Na primeira estrofe é questionada a definição da metafísica, A crítica ao pensamento é uma marca de Caeiro. O poeta já inicia afirmando que o não pensar é metafísico. Para ele, pensar é um elemento da cultura, que molda o ser humano, e o distancia do sentido real das coisas. O homem civilizado está, por tanto, mais próximo do conhecimento e distante da Natureza: “Há metafísica bastante em não pensar nada”


Na segunda estrofe o autor é mais específico, questiona o pensar, agora, mais especificamente o mundo. Caeiro percebe o mundo sem, necessariamente, convidar o pensamento para fazer parte disso. Pensar é ver o mundo livre e inocentemente “O que eu penso do mundo? Sei lá o que eu penso do mundo!”A única alternativa para pensar o mundo, então, é adoecer. A doença afeta os nossos sentidos físicos, impedindo-nos de discernir a diferença entre as coisas. Por isso, vale dizer que a razão iguala tudo. “Se eu adoecesse pensaria nisso.”


Na terceira e quarta estrofes, Caeiro questiona a filosofia: “que ideia tenho eu das cousas?” e também as religiões. Tanto em um quanto em outro há perguntas sem muitas respostas. Através da Filosofia existe uma questão básica: “de onde vim?”. Utiliza um Discurso religioso quando questiona a criação do mundo em relação com deus e a alma, tanto gregos, quanto cristãos e outros povos, possuem um mito criacional. E logicamente, representam o contexto da sociedade em que vivem. O interessante é que Caeiro coloca em discussão os termos “ideia” e “opinião” todos associadas à reflexão do pensar. Ele questiona: “Não sei”. E em seguida expõe que “pensar nisso é fechar os olhos/ E não pensar. É correr as cortinas”.


Na quinta estrofe o homem encontra-se com o mistério. Existe a interrogação referente ao o que é mistério, e também a afirmação do que é mistério O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério o único mistério é haver quem pense no mistério”, dialeticamente, refere-se aos que pensam no mistério e, por isso não enxergam o sol, os vales, as plantas etc.. E os que diferentemente se apropriam da visão para ver, dos ouvidos para ouvir, da boca para degustar, do tato, para apalpar, do olfato para cheirar.


Assim, como há uma interrogação ao mistério das cousas, na sexta estrofe o poeta materializa a Metafísica. Relacionando-a com a matéria das árvores “Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?”, podemos concluir que a metafísica é a naturalidade dos objetos e dos meios entre si. A natureza, por tanto tem sua própria administração, pois existem períodos de nascimento, crescimento, reprodução e morte. A natureza tem estações, ela sabe à hora certa de agir. Então, ele conclui na sequência de estrofes sete, oito e nove que “único sentido íntimo das cousas, é elas não terem sentido íntimo nenhum”. As coisas quando nomeadas geram uma significação, constroem significados e fundamentam conceitos. Caeiro utiliza a linguagem, impondo também uma antítese: “tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada”. Tudo é falso. E tudo não é nada. Platão dividiu o mundo em dois estágios: o sensível e o das ideias, este representa o Belo, o Verdadeiro; e aquele, o falso, o aparente. E Alberto Caeiro situa-se exatamente neste, uma vez que experimenta e abusa das sensações.


Caeiro, desconstrói a ideia de que deus está nos céus, e o aproxima do ser humano, os quais, segundo o Mestre Caeiro, vivenciam com os sentidos, ou pelo menos deveriam, desvencilhando-se também da cultura e achegando-se à Natureza: “não acredito em Deus porque nunca o vi. / se ele quisesse que eu acreditasse nele,/ Sem dúvida que viria falar comigo e entraria pela minha porta dentro/ Dizendo-me: Aqui estou!”. Nesta estrofe, vemos a expressão dos sentidos. “Falar”, “entrar” e quando dissesse “Aqui estou!” o poeta o veria e o ouviria. Aos que pensam isto não faz o menor sentido, releva-se comentar que o fato de trazer à tona deus nas discussões é uma espécie de contato, de manifestação sagrada. “Mas se deus é as flores e as árvores e os montes e sol e o luar.” Deus é aquilo que posso ver: a Natureza. Por entrar em ligação com o mundo natural via os sentidos, pode-se criar, uma nova Natureza, e, com isso, elevá-la à condição divina. Caeiro, genialmente, tira deus da transcendência e o coloca imanentemente ao ser humano. Isto é, os homens com os deuses da terra, da mãe-natureza mantêm uma interação. E esta situação nem precisa de um novo nome “Deus”, mas de nomes já dispostos naturalmente: “Se Deus é as árvores (...) chamo-lhe árvores”.


Consequentemente, para Caeiro “a Natureza é divina”, corroborando ainda mais as marcas sagradas ao poema quinto do Guardador de Rebanhos. Alberto Caeiro, por tanto, torna sagradas as sensações. O pensar em deus é vê-lo e ouvi-lo; e isso, graças à divinização da Natureza. Em suma, é a sagração da Natureza e a naturalização do sagrado. E este só é possível também por causa da experiência do sentir, do ver, do perceber.


Poema VIII

Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.


Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas —

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.


Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

«Se é que ele as criou, do que duvido.» —

«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres.»

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

……

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina.


É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.


A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.


Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.


Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.


Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do Sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.


Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.


Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

……

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

……

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?


Análise

Existe uma face pagã presente praticamente em todo o poema VIII e serve, sobretudo, para imprimir uma marca forte nesse que foi considerado o mestre dentre os heterônimos “Pessoanos”. “Num meio-dia de fim de primavera/ Tive um sonho como uma fotografia Vi Jesus Cristo descer á terra”. Desde a primeira estrofe podemos observar um “eu” poético que retrata uma visão onírica supostamente tida com o menino Jesus. Na primavera podemos perceber uma essência que remete a inocência e a juventude, desabrochando toda a natureza. Veio pela encosta de um monte/ Tomado outra vez menino”. É como se o sujeito poético promovesse uma regressão temporal e corporal e ao mesmo tempo em que ele dessacraliza o texto bíblico, sacraliza o texto literário. São marcas textuais evidentes que imprimem traços da modernidade.


O paganismo Caeiriano se expõe mais claramente, a partir do segundo parágrafo: “Tinha fugido do céu./ Era nosso demais para fingir/ De segunda pessoa da Trindade”. Caeiro explora a versão mais antiga do cristianismo, os valores cristãos são postos à prova: “Nem sequer o deixavam ter pai e mãe/ Como as outras crianças./ O seu pai era duas pessoas / Um velho chamado José, que era carpinteiro,/ E que não era pai dele/ E o outro pai era uma pomba estúpida/ A única pomba feia do mundo/ Porque não era do mundo nem era pomba./ E a sua mãe não tinha amado antes de o ter”. É revelado um cristo humanizado, e facilmente é revelada uma afronta a igreja católica.


Na quinta estrofe, Caeiro associa as travessuras engenhosas de deuses pagãos ao menino Jesus: “É uma criança bonita de riso natural/ Limpa o nariz ao braço direito/ Chapinha nas poças de água/ Colhe as flores e gosta delas e esquece-as/ Atira pedras nos burros/ Rouba a fruta dos pomares/ E foge a chorar e a gritar dos cães/ Corre atrás das raparigas/ E levanta-lhes as saias”. No poema Caeiro sugere que o menino Jesus foge do céu, por não poder sorrir e brincar como uma criança normal, ou seja, por ser uma criança divina, não pode ser uma criança humana. Uma vez no mundo seu comportamento é comum ao de qualquer rapaz.


Depois de contar de que maneira se comporta quotidianamente o Menino Jesus, Caeiro revela: “a mim ensinou-me tudo./ Ensinou-me olhar para as coisas”. Acima de tudo, o Menino Jesus foi afinal o responsável pela aquisição do objetivismo absoluto que os discípulos mais tarde louvariam no Mestre, seria displicente supor que as coisas que lhe diz de deus, logo na estrofe seguinte, não fossem também elas parte dos ensinamentos recebidos. Diz o Menino Jesus que Deus “é um velho estúpido e doente/sempre a escarrar no chão/e a dizer indecências”, que “a Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia”, que “o Espírito Santo coça-se com o bico/e empoleira-se nas cadeiras e suja-as”. E remata: “tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica”. O ataque não poderia ser mais claro: Caeiro contradiz os dogmas católicos.


Logo após, o menino Jesus afirma: “Diz-me Deus não percebe nada/ Das coisas que criou/ “Se é que ele as criou, do que duvido”.Nesse aspecto Caeiro mostra-se cético, duvidando da origem bíblica da criação, e pondo e contraponto uma visão: Deus é um poeta místico. E, enquanto poeta místico, aquilo que Deus diz, ou o que dizem em seu nome, não pode senão ser falso.


O poema VIII sugere que os ensinamentos do Menino Jesus foram decisivos para a tal “aprendizagem de desaprender”.


Caeiro é um poeta saudável, um poeta imune a todas as formas de misticismo, porque “o deus que faltava” , um deus divino, porém humanizado, o fecundou de dedo em riste. Mais até do que isso, Caeiro é “poeta sempre”, como o diz, “porque ele anda sempre comigo” Como bom “Cupido católico” que é, o Menino Jesus não só o ensinou a olhar para as coisas de dedo apontado como o ensinou depois a amá-las e a andar de mão dada com elas: “A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim”.


Caeiro admite ainda que o Menino Jesus “dorme dentro da minha alma”. Se, mais do que viver com Caeiro, o Menino Jesus dorme dentro dele, não é apenas uma divindade exterior que o acompanha sempre, lhe aponta para onde deve ver e lhe dá a mão quando passeiam. É antes uma divindade que faz parte dele. O menino Jesus acompanha e é aquilo que Caeiro representa ao mesmo tempo, representa sua alma pagã.


No final do poema Caeiro descreve uma inversão de papeis “quando eu morrer, filhinho,/seja eu a criança, o mais pequeno”.Uma vez morto, Caeiro torna-se o Menino Jesus de outros.


Tendo em vista que, os discípulos de Alberto Caeiro o consideravam um “semi-deus-criança”, parece-me plausível afirmar que, o poema VIII, descreve a semelhança entre o poeta calmo que vê a natureza como um ser divino com o menino Jesus que ensina a ver as coisas com determinada clareza e naturalidade.

 
 
 

コメント


bottom of page