Introdução – Modernismo (1915 - Atualidade)
- Alexandre Paiva
- 22 de abr. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de mai. de 2018
Por Zacharias Alvim
De acordo com Massaud Moisés [1984] em seu clássico A Literatura Portuguesa, os primeiros anos do século XX europeu acusam profundas e amplas transformações culturais e estéticas, das quais não poucas tinham sido lentamente gestadas ao longo do século XIX: quase se diria que as mutações anteriores apenas serviram de ensaio para alguma coisa de novo que só veio a declarar-se, explosivamente, na alvorada desta centúria.
Como sempre, Portugal procurou adaptar-se ao ritmo Europeu e beneficiar-se do progresso cultural em curso, embora reduzindo-o à sua medida enquanto povo, história e mentalidade. Tanto é assim, que hipertrofiando uma tendência que vinha do Realismo (para não dizer que vinha desde os românticos exaltados), se avoluma a onda de insatisfação contra o regime monárquico, incapaz de resolver os problemas mais urgentes da Nação e oferecer um clima normal de tranquilidade e progresso.
Em 1908, o ainda muito jovem D. Manuel II ascende ao poder em clima de turbulências, o monarca equilibra-se até 1910, quando precisamente a 4 de outubro, se insta-la a república em Portugal: em consequência, D. Manuel II exila-se para a Inglaterra, onde falece em 1932. Proclamado o novo regime, chamam Teófilo Braga para assumir provisoriamente as responsabilidades do governo.
Perante a nova situação que se encontra o País, logo se formam duas facções, opostas no modo como a encaram: uma delas, satisfeita, ou conformada com a República, procura dar-lhe bases, uma doutrina ou filosofia tipicamente portuguesa; a outra, a dos inconformados, dos insatisfeitos com o novo estado de coisas, assume um caráter contrarrevolucionário e aglutina-se em trono de Antônio Sardinha (1888-1925), em 1914, formando o grupo do Integralismo Português, de que veio a sair o Estado Novo, em 1926.
Para a história das ideias em Portugal neste século, o grupo dos republicanos satisfeitos ou conformados tem maior relevância, graças ao papel que desempenha desde a primeira hora em que se instaura o novo sistema de governo. Em 1910, surge Águia, revista mensal de “literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social”, logo tornada órgão da Renascença Portuguesa, rótulo que os conformadospassaram a usar como expressão de seu programa de fundamentação e revigoramento da cultura Portuguesa, em moldes modernos. As principais figuras do movimento são: Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão e Leonardo Coimbra. Ao primeiro cabe o papel de mentor e de doutrinador, tendo por base o estabelecimento duma filosofia autenticamente lusitana, em torno da saudade, o Saudosismo: “O fim desta revista”, diz Teixeira de Pascoaes no editorial com que se abre a segunda série d’A Águia, começada em 1912, “como órgão da Renascença Portuguesa” será, portanto, dar um sentido às energias intelectuais que a nossa Raça possui: isto é, colocá-las em condições de se tornarem fecundas, de poderem realizar o ideal que, neste momento histórico, abrasa todas as almas sinceramente portuguesas: - Criar um novo Portugal, ou melhor, ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancá-la do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de escuridade física e moral, em que corpos definharam e as almas amorteceram”
A Águia leva uma segunda série até 1916, e uma terceira até 1930, quando desaparece, mas em 1913 opera-se uma cisão interna que provoca o afastamento de Antônio Sérgio, Jaime Cortesão e Raul Proença, inconformados com o caráter visionário que vai assumindo o Saudosismo de Pascoaes. Do cisma vai nascer, em 1921, a Seara Nova, onde o grupo dissidente procura levar a cabo um programa de reforma cultural de bases realistas, científicas e tanto quanto possível dentro duma visão universalista. Com esse desiderato, a revista se mantém até hoje, sob título de “Nova Águia”.
Entretanto, o visionarismo de Pascoaes consegue momentaneamente empolgar um grupo de jovens literatos de Lisboa, aparecidos entre 1912 e 1915, alguns deles inclusive chegando a colaborar no Águia, como Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Em 1915, ainda refletindo o clima saudosista, lançam a revista Orpheu, com que tem o início o Modernismo em Portugal.
Boa introdução e pesquisa. ok