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Literatura 18 

Chove. É dia de Natal – Por Jamile dos Santos

Foto do escritor: Alexandre PaivaAlexandre Paiva

Atualizado: 20 de mai. de 2018


Acervo Google Image Search "Fernando Pessoa"

CHOVE. É DIA DE NATAL.

Por falar em Natal, e em Poesia...

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior. E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar. Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não. Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.


Análise do poema "Chove. É Dia De Natal"


Poema datado de 25/12/1930, por isso poema tardio. O poema "Chove" é um poema ortónimo de Fernando Pessoa, ou seja, escrito em seu próprio nome e não usando o nome de um dos heterônimos. De fato este poema não é sobre a chuva, é um poema sobre o Natal, ou melhor, sobre a celebração do Natal. O poema "Chove" é um pequeno poema, que mistura a simplicidade da sua estrutura (4 estrofes cada uma com 4 versos), com uma subtil ironia e humor negro que são marcas da obra do poeta.


Lembra instantaneamente Álvaro de Campos, no poema "Aniversário", onde Campos se lamenta de estar sozinho - quando era menino todos se juntavam para a comemoração, mas agora quando ele é adulto ninguém está ao pé dele, ele está sozinho "como um fósforo frio". Por viver sozinho durante quase toda a sua vida, Fernando Pessoa sente como poucos o sofrimento da separação, pois aliada a esta vida de solitário vinha a sua extrema sensibilidade de poeta e o seu pensamento claro e racional de homem inteligente.


Mas vamos analisar o poema estrofe a estrofe:


“Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal, E o frio que é ainda pior.”


Conseguimos imaginar Pessoa à sua janela a ver a chuva cair, no frio de Dezembro. Mas há um frio ainda maior no seu coração. Veja-se que ele fala de como no Norte é melhor do que onde ele está, porque há "neve que faz mal / e o frio é ainda pior.


"E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar."


Toda a gente é contente, eis porque Pessoa inveja as celebrações a Norte, celebrações longe, de aldeia, onde todos se reúnem no dia feliz, no dia de Natal todos “Ficam felizes” a ironia de Pessoa é amarga, porque se por um lado ele identifica a felicidade algo falsa, porque só celebrada no Natal, ele inveja não a ter para si mesmo.


"Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não."


O frio não lhe traz o Natal, Ele sente o frio do Inverno, sente o frio da chuva, mas dentro dele não é Natal - falta-lhe a felicidade desse dia, a companhia de alguém ou razão para celebrá-lo.


"Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés."


A conclusão, rápida e cheia de humor, disfarça o mal estar do poeta perante este tema. Metaforicamente ele sente tanto o frio ao escrever - o frio em si mesmo - que tem de parar de fazer quadras, para não ficar "gelado dos pés".

É este humor, um humor negro típico de Pessoa, que fala de solidão e de frio, mas frio interior intempérie da alma e não da Natureza.

 
 
 

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